sábado, 1 de novembro de 2008

Cicatriz

- Sabe, tem uma coisa que há muito tempo eu quero te dizer.
- Ah não, pode parar! Não quero ouvir.
- ?
- Não quero ouvir nada que tenha se mantido oculto por muito tempo.
- Agora eu já disse que tenho algo a dizer. Agora eu preciso dizer.
- Não diga.
- Agora eu PRE-CI-SO.
- Tá bom.
- ...
- ...?
- Agora não consigo mais.
- Ótimo.
- Estava brincando. Não tenho nada a dizer.
- Hum.
- Te enganei, hein?
- Na verdade, está tentando me enganar.
- Eu?
- Sim. O que é que irias dizer?
- Mas tu disse que não queria ouvir.
- A-há! Viu como tinha algo?
- É claro que havia, e há. Mas eu tentei amenizar as coisas, já que tu disse que não queria ouvir nada.
- Agora eu quero.
- Por que antes não queria?
- Porque eu detesto saber de coisas que deveriam ter sido ditas há muito tempo.
- Trauma?
- Não interessa.
- É trauma.
- Falou o "psicólogo".
- Como se precisasse ser...
- Meus pais demoraram 10 anos pra me dizer que eu fui adotada.
- Puxa, então tu és adotada?
- Sim. E demoraram a me dizer.
- Talvez porque se dissessem antes, tu perguntaria "o que é adotada?".
- Perguntaria, e bastaria explicar.
- Talvez tu reagisse mal à explicação.
- Bastaria continuar explicando.
- Talvez tua reação fosse tão ruim, que não seria possível sequer continuar convivendo.
- Bastaria ter um pouco de...
- Chega!
- ...
- É isso! Queira ou não, algumas coisas são como a cerveja: elas precisam de algum tempo fermentando para se tornarem essa deliciosa bebida.
- Detesto cerveja, ué.
- O vinho também é assim.
- Hum.
- Entendeu?
- Diga logo o que é que queria me dizer.
- Tá vendo essa cicatriz?
- To. Teu umbigo é uma graça.
- Foi tu que fez.
- Quê?
- Tu tinha só 3 aninhos. Eu tinha 6.
- ??
- Aquele orfanato era uma droga, né?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Quem sabe...

- Quem me vê, não sabe o quanto sou triste.
- Agora, estou sabendo.
- Só na teoria.
- Agora, sei que é só na teoria.
- Sabe, mas não sente.
- Agora sei disso.
- Pensa que sabe.
- Agora s...
- Deu!
- Sim.
- Que há?
- Quem me ouve, não sabe o quanto sou triste.

sábado, 5 de julho de 2008

Despedida

- Meu Deus, como eu detesto despedidas.
- Bom, todo mundo detesta, né?
- Mas comigo é mais forte.
- Trauma?
- Não sei, mas eu recebo torpedos de angústia em toda e qualquer despedida.
- Nossa, mas quantas despedidas tu faz por ano?
- Por ano?! Por dia.
- Mas nem que fosse guia turístico...
- Não estou me referindo apenas às despedidas de trens e ônibus que partem aplaudidos por lágrimas de saudade antecipada. Eu detesto todas as despedidas.
- Que outras despedidas existem?
- Quando estamos fazendo alguma coisa e alguém diz que vai sair. Quando estamos conversando e alguém diz que precisa ir. Quando alguém diz "boa noite, estou indo dormir".
- Ora, qual o problema de dizer "boa noite" e ir dormir?!
- Eu não suporto. Eu simplesmente não suporto as despedidas.
- Bastaria ir dormir também.
- Sempre fico acordado, observando o sono alheio como um gato observa uma bolinha de gude rolando num chão de madeira. Observo o sono alheio constatando a despedida concretizada, e minha permanência imobilizada.
- Conheço uma excelente psicóloga. (risos)
- ¬¬
- Mas não tens idéia de por que és assim?
- Não sei, é desde pequeno.
- Bom, eu tenho que ir.
- ...
- Brincadeirinha. Só queria ver tua reação.
- Que sadismo.
- Não! Queria ver tua reação para que pudesse ver tua recuperação quando eu dissesse que era brincadeira.
- Quem dera todas as despedidas fossem "brincadeirinhas".
- Ó... Mas olha, despedidas são importantes. Se não existissem despedidas, não existiriam reencontros. Tudo seria um eterno e constante momento imutável. E nós ainda não estamos prontos para esse tipo de realidade eterna. Nós sequer estamos prontos para fazer do casamento, que é um dos maiores símbolos de eternidade na sociedade, algo realmente construtivo. Imagina então...
- Por que não estamos prontos para a eternidade? Eu estou pronto.
- Não tá não.
- Eu estou!
- Na-na-ni-na.
- Quer parar?
- Opa! Eu senti um bom nível de irritação nesse pedido.
- E daí?!
- Se tu entrar na eternidade agora, assim, vai ser um cara irritado pra sempre.
- Não vou. Raiva passa.
- Na eternidade, não passa. Se passar, não faz parte da eternidade.
- Ok, é verdade. Então é isso...
- Isso o que?
- Isso é o que me faz ficar tão angustiado com as despedidas. Não são as despedidas que me ferem.
- O que fere, então?
- O fato de eu não estar pronto para a eternidade. A cada despedida, talvez eu lembre inconscientemente disso.
- Um dia vai estar preparado, não precisa se angustiar, querido.
- Agora era um bom momento pra entrar na eternidade!
- Agora? Por que?
- Eu ficaria eternamente te adorando.
- E ficaria eternamente com essa taça de vinho na mão? (risos). Vamos dormir?
- Vamos.
- Mas nada de ficar acordado angustiado observando meu sono.
-
- Que cara é essa?
- Só pensando.
- Em que?
- De fato, eu não estou pronto para a eternidade. Mas...
- Hum...?
- Para o casamento, estou.
- Diz de verdade?
- De verdade.
- Agora sou eu quem não vai dormir!!
- Desculpe dar uma má notícia a essa hora. (risos)
- A notícia mais perfeita do mundo.
- :)
- E melhor ainda que...
- Que...?
- Não haverá despedida de solteiro! :)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Quinta-feira.

- Hoje sou um acumulado de sonhos e visões.
- Hoje?
- Sim.
- E ontem?
- Ontem era um acumulado de sonhos e visões que ainda não sabia disso.
- E amanhã?
- É sexta-feira.
- ...
- Não, falando sério. Amanhã é sexta-feira.
- E daí?
- Sexta-feira é dia de desafiar o impossível.
- Pra mim é no domingo. Quando chega de noite, eu tento fazer com que volte para sábado.
- Por que? Segunda-feira é um sorriso.
- Ah, é. Puxa, sorriso colgate!
- Segunda-feira é o sorriso que revela a eternidade. Ela só se torna um peso quando nós fazemos escolhas erradas.
- Qual o problema da eternidade ficar fixa no sábado?
- O problema? É que o segredo da eternidade está nos ciclos. Me diga: por que os números são infinitos?
- Essa é fácil: tem um tiozinho que fica sempre inventando novos números.
- Se eu jurar que já pensei isso quando era pequeno, tu acredita?
- Óbvio, todo mundo algum dia já pensou isso.
- Os números são infinitos porque sempre que o fim chega, o ciclo recomeça com uma variável a mais. Partimos do 1, percorremos toda a trilha até o 9, onde encontramos o FIM. O 9 representa o fim da trilha, não há mais para onde ir, tudo está consumado. Então o que acontece? Voltamos ao 1, e iniciamos um novo ciclo junto com ele. Desta forma, o 10 é o mesmo que zero, só que está com o carimbo do segundo ciclo.
- Isso não advoga contra a eternidade fixa no sábado.
- A segunda-feira é o carimbo do novo ciclo. A cada segunda-feira, nós temos um algarismo a mais, temos uma casa a mais. Jamais somos os mesmos a cada segunda-feira.
- Eu não quero deixar de ser a mesma, estaria tudo bem.
- Tu diz isso hoje.
- Sempre disse, desde pequena.
- Mentira...
- Eu não lembro, mas certo que eu dizia.
- Não dizia.
- Se não dizia, era porque não tinha capacidade para tal.
- Exatamente. Para que tu te tornasse capaz de avaliar as segundas-feiras, tu precisaste receber vários algarismos a mais.
- E isso por acaso faz sentido? Receber algarismos para depois concluir que não os quero mais?
- Não sei... Os próximos algarismos é que irão dizer.
- Não quero mais nenhum!
- A partir de quando?
- DE AGORA!
- São meia-noite e cinco. Já é sexta-feira.
- Tanto faz!
- É dia de desafiar o impossível.
- Eu desafio a segunda-feira a nunca mais acontecer!
- A gente se conheceu numa segunda-feira. Lembra?
- Lembro. Mas aquela foi legal.
- E tu sabia que seria?
- Não.
- :)
- Larga de ser bobalhão. E tu, vai desafiar o que?
- A quinta-feira.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Fechado

- Olá, Diabo.
- Bleh! Que queres?
- Vim conversar.
- Não tenho interesse.
- Quanta deselegância em negligenciar uma conversa.
- Bleh! Que queres?
- Negociar.
- Vamos! Quer um café?
- Sim, por favor. Com leite.
- Não tem leite.
- Eu sei, por isso pedi.
- Que queres negociar?
- Minha vida.
- Que queres em troca?
- Que me coloques no governo do Brasil.
- Posso, mas que queres?
- Salvar os desgraçados.
- Imbecil! Tens mais o que fazer neste cargo.
- Não te cabe julgar, Diabo. Negócio fechado?
- Não vales a merda que meus vermes cagam. Caia fora.


- Oi.
- Olá, rapaz.
- Tu és anjo?
- Sim, sou.
- Cadê as asas?
- Que asas?
- Anjo tem asa.
- Anjos podem voar. Isso não significa ter asas, embora alguns irmãos de hierarquia maior realmente tenham.
- Por que eles têm?
- Alcançaram um nível de liberdade espiritual tão alto, que as asas representam seu poder.
- Entendo.
- Me chamaste a quê, meu irmão?
- Quero negociar.
- Não precisa. Tens mérito suficiente para pedir.
- Quero algo grande. Preciso negociar, sei disso.
- Pois diga, por favor.
- Quero o governo do Brasil.
- Realmente grande. Tenho três exigências.
- Diga, Anjo.
- Encontrarás um ex-presidiário liberto há 1 dia, e farás ele reacreditar na vida.
- Onde encontrarei, Anjo?
- Eu enviarei. Segunda exigência: alguém prestes a cometer suicídio te contará um problema. Deverás convencê-la de que a vida é superior ao problema.
- Eu o farei, anjo. E a terceira?
- Deverás renunciar a um amor em nome de tua Causa. Tua mente gritará contra e teu coração se fará vítima. Deverás renunciar.
- E se não puder?
- Desfaz-se o pedido.
- Mais alguma exigência, Anjo?
- Hm.. Para que queres chegar ao governo do Brasil?
- Para salvar os desgraçados.
- Cumpra as exigências e te ajudarei.
- Fechado.

domingo, 2 de março de 2008

Minimalista

- Eu sou minimalista, por todas as pequenas e grandes coisas que um dia já representaram algo que fazia parte de mim. Essas coisas pareciam simples, pareciam fazer referência à simples objetos, mas esses objetos faziam referência à mim. Sou minimalista pela força que possuem as ondas, pelo poder que possui um "sim, te ajudo". Serei assim, minimalista, enquanto os dias ousarem nascer com um sol que esconde a complexidade de ser uma estrela como todas as outras que nós enxergamos à noite. Serei... E antes que desistas de me ouvir, te digo que serei minimalista enquanto teus olhos continuarem a me mostrar um eterno infinito resumido em 2 cores. Tenho certeza que o paraíso é plenamente minimalista.
- Deu?
- Sim.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Apegos

- Sabe os bichos cabeludos?
- Sim, tipo lagartas pretas.
- Isso!
- Que tem?
- Já viu algum filhote?
- Como assim?!
- Já viu algum filhote de bicho cabeludo?
- Não, sempre eram grandinhos.
- Ok. E já tocou em algum?
- Claro que não! Eles queimam...
- Como sabe?
- Minha mãe me falou.
- Hm..
- O que?
- Entendeu?
- Ahn... Não, o quê?
- Tu nunca viu um filhote. Não existem bichos sem filhotes.
- É, realmente nunca vi um filhote disso.
- E nunca encostou em algum...
- Claro que não!
- Nunca viu um filhote e não sabe se queimam. E aposto que quem te disse que queimam, nunca encostou neles. E quem disse para quem te disse, tampouco. E ninguém sabe de onde eles vem.
- ...
- Assim nascem os apegos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

O peso

- Essa musica... Ela me dói.
- Quer uma aspirina?
- Dã. Não brinque com isso, dói mesmo.
- Então porque escutas?
- Porque eu gosto muito dela.
- Hm, entendo. Então tens uma âncora.
- Uma âncora?
- Sim, de navio.
- Eu sei o que é âncora, mas explica melhor.
- O que acontece com um navio ancorado?
- Fica parado, oras.
- Fica parado, ou se ativar os motores, anda muito lentamente.
- Sim.
- Sempre que uma musica que gostamos nos dói, é porque estamos ancorados. Tem alguma coisa nos prendendo, tem alguma coisa pesando demais.
- Hm.
- Tu não vai ir muito longe enquanto não desancorar. Vai ficar sempre dando voltas no mesmo quilômetro quadrado, e cada vez que uma onda aparecer, ao invés de surfar nela com liberdade e boa disposição, a âncora vai pesar, a onda vai passar... E tu vai ficar.
- Como desancorar?
- Não sei. Só tu pode saber. Só tu sabe o peso disso, e só tu sabe como se desfazer dela.
- Ou deveria saber.
- Não se preocupe, uma hora vai fazer sentido.
- Espero que sim.
- Quando puder ouvi-la sem sangrar, estarás pronto.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Esperança

- Onde as moscas morrem?
- Eu não sei nem onde as pessoas morrem.
- Mas as pessoas a gente encontra mortas, quando morrem. E as moscas, onde morrem?
- Não dá para encontrá-las pois são muito pequenas.
- Ah, conta outra. Todo dia vejo no mínimo umas 6 ou 7 moscas rondando a sala no almoço. E nunca mais vejo elas. Não vejo no chão, na mesa, em lugar nenhum. Dizem que as moscas não duram mais que algumas horas. Tinha que ter uma multidão de moscas aqui pelo chão. Onde elas estão?
- A pessoas varrem, né?
- EU varro. E nunca vi uma única mosca no chão.
- Olha, sabe que fiquei curioso agora.
- Que estranho, né?
- Sim, muito. Eu nunca vi uma mosca morta, nunca.
- É como esperança.
- Quê?!
- Morre tantas vezes, mas nunca aparece morta.
- Nossa, é verdade.
- Mas tem a diferença de que a esperança não precisa necessariamente morrer tão cedo.
- Que horas são?
- 14, por quê?
- Nada. Tenho que ir embora às 16.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A verdade

- Bem me quer... Mal me quer...
- Pára com isso, deixa a florzinha em paz.
- Bem me quer... Não estou judiando dela, as flores não se importam. Mal me quer...
- Bom, eu se fosse flor não gostaria de ter minhas pétalas arrancadas.
- Bem me quer... Faz parte do destino delas.
- O destino delas é ser um oráculo instantâneo?
- Mal me quer... Uma mensageira da Vida.
- Cai na real, isso não pode ser verdadeiro.
- Bem me quer... Claro que é verdadeiro. Mal me quer...
- Esquece isso, vai. Vamos comprar picolé?
- Bem me quer... Daqui a pouquinho. Mal me quer...
- Que bobagem, pára com isso.
- Bem me quer.
- ...
- Que medo tu tem de dizer a verdade, hein?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O tempo e o valor

- Aquela nota de 200 cruzeiros me fascinava.
- Qual?
- Uma de 1987, por aí. Era verdinha, com aquele rosto místico e atrás tinha uma figura estranha.
- Não lembro muito bem. 200 cruzeiros era bastante?
- Quando meu pai me deu a minha primeira nota, valia um monte! Eu a guardei na minha gaveta especial. Todos os dias eu abria a gaveta umas 4 ou 5 vezes só pra olhar pra nota.
- Não teria sido mais útil gastá-la?
- Útil, talvez. Mas eu estava apaixonado por aquela nota. Eu me sentia rico, gostava das cores dela, gostava daquele rosto cego com alfaces em cima da orelha. Era algo tão misterioso e valioso...
- Não vai me dizer que guarda ela até hoje.
- Não, claro que não.
- Seria estranho, hehe.
- Quando meu pai observou que eu havia guardado a nota ao invés de gastá-la, ele disse que me daria uma nota por semana.
- Uma nota de 200 por semana? Puxa!
- Não, não éramos ricos. Ele disse que daria uma nota por semana, mas não disse o valor delas. E pouco me importava, eu nem sabia quanto cada uma valia. Eu media o valor delas pela cor e pelas figuras.
- E que notas ganhava?
- Na maioria das vezes, de 10. Às vezes, de 50, que era uma nota ainda mais bonita e misteriosa.
- E o que dava pra comprar com elas?
- Não faço idéia. Eu não gastava, eu apenas guardava. Todas. Em alguns meses eu tinha uma quantidade tão enorme de notas, que eu passava minutos contando-as. Bem, eu não sabia contar ainda, mas ia folhando-as como se estivesse a contar os lucros do dia.
- Que bonitinho.
- Mas chegou um dia em que eu mal conseguia segurar as notas, era um bolo enorme. Era bonito de ver, era uma fortuna. Uma fortuna nas minhas mãos! Então decidi que havia chegado o momento de ir a uma loja de brinquedos e comprar o brinquedo mais caro que eles pudessem oferecer.
- Tanta economia pra gastar assim?
- Ah, eu já estava cansado de guardar dinheiro. Já estava começando a enjoar de ser rico, e achei que era hora de ser pobre e feliz com algum brinquedo sensacional. Pedi que me levassem na loja do bairro, ao lado do estádio Olímpico, onde morávamos. A loja de brinquedos da rua Eurico Lara, que nem existe mais. Entrei lá de peito estufado, com o bolão de dinheiro em mãos para mostrar que estava disposto a gastar.
- Haha, imagino a cara das vendedoras.
- Comecei a investigar os brinquedos mais atraentes da loja, e pedi que meu pai contasse pra mim quanto eu tinha. E quando eu vislumbrava enlouquecidamente um avião de controle remoto, que era quase maior que eu, recebi a assustadora notícia de que aquele avião custava 50 vezes mais do que eu possuía.
- Ah, mas esses aviões são caros mesmo.
- É, mas eu comecei a ir de brinquedo em brinquedo, apontando um por um. "Caro demais". "Não dá". "Piorou". Eu não podia comprar absolutamente nenhum brinquedo daquela vasta loja.
- O que aconteceu?
- Dinheiro parado na mão de uma criança, numa época em que a inflação chegava a 90% ao ano. Eu passei cerca de 1 ano e meio juntando. Meu dinheiro desvalorizou quase 100%.
- Coitadinho. O que acabou comprando?
- Essa ampulheta com areia azul.
- Hm. Tu sempre carrega isso na mochila.
- Ocorreu o efeito inverso do meu dinheiro. Esse objeto valorizou com o tempo, e hoje é um tesouro de valor inestimável. E agora ela é tua.
- Minha? Tá me presenteando?
- Estou, pega.
- Vou cuidar bem dela. Mas... Por quê?
- Daqui 10 anos, devolva-me 900% valorizada.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

De hoje

- Gosto muito de escrever.
- Não gosto muito.
- Acho que sou fanático. Quero sempre colocar as idéias em forma de letras.
- Sempre?
- Sempre.
- Quando vai beijar alguém, imagino que tu puxe o cadernino e escreva "beijarei".
- Estás me banalizando gratuitamente. Se gosto de escrever, não preciso ser o personagem mais vulgar de uma comédia de terceira linha.
- Hehe, desculpa vai... Mas o que tu gosta de escrever?
- Tudo que chega até mim, com algum sotaque de "coisa especial", eu gosto de escrever.
- Então escreve sobre mim!
- Já escrevi bastante.
- Sério?! Deixa eu ver!
- Queimei.
- ???
- Queimei todas as páginas que escrevi de ti.
- Argh! Por quê?!
- De hoje em diante tu vais dar valor às escritas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Cristiane

Sentaram nas almofadas jogadas ao chão. As velhas almofadas laranjas que decoravam a sala há tantos anos. A sala não era sala sem as almofadas laranjas e o seu característico cheirinho de almofada laranja velha.

- Sabe do que me deu vontade agora?
- De ir no banheiro?
- Não...
- Ah, é que sempre que vamos colocar um filme, tu tem vontade de ir no banheiro.
- Não é vontade, é pra garantir que eu não precise ir durante o filme!
- E como se faz sem vontade?
- Condicionamento psicológico. Tu chega ali, encara o vaso sanitário, ele te encara também, como quem flerta na praça... O corpo aproveita esse namorico e gera a vontade que antes estava latente aguardando um momento propício. O corpo humano é muito inteligente e eficiente.
- Hm... Mas de nada adianta, porque tu sempre vai de novo durante o filme.
- É a saudade do ex-namoro, hehe.
- Boboca. Fala o que tu tinha sentido vontade!
- Ah sim, de piscina de bolinhas.
- Nossa...
- Que foi?
- Sabe que até me deu vontade agora também...
- Tu também adorava aquelas piscinas?
- Demais! Mas...
- O que?!
- Só fui uma vez, minha vida toda.
- Nossa, eu fui muitas! Por que uma só?
- Eu lembro perfeitamente, quando escorreguei pela primeira vez no tunel e caí naquele mar de bolinhas coloridas. Foi a coisa mais emocionante que eu havia feito até então. Eu não me continha de felicidade. Aí percebi que havia um garotinho descendo o túnel também, e nós dois ficamos feito serelepes nadando nas bolinhas. Ele jogava bolinhas em mim e eu jogava nele. Foi então que, acalmando um pouco a euforia, ele pegou uma bolinha cor de rosa, veio na minha direção e extendeu para mim, para que eu pegasse.
- Mas que safado, flertando na piscina de bolinhas?!
- Éramos apenas crianças. Eu peguei a bolinha rosa com um sorriso de orelha a orelha. Sem que eu pudesse sequer imaginar, ele me deu um beijo na boca, desses de encostar os lábios só.
- Tarado!
- Eu não fazia a menor idéia do porquê ele havia me beijado. Limpei a boca com a a manga da roupa e quando eu ia voltar à diversão das bolinhas, meu pai gritou meu nome com o tom de voz de quando estava irritado. Eu levei um susto enorme, passei de feliz para apavorada em 1 segundo.
- Ele viu o beijo?
- Viu, e ficou muito bravo. Mandou eu sair, xingou o menininho, discutiu até com o pai dele. Me pegou pelo braço e começamos a ir embora. Eu só pude olhar para trás...
- Procurando ver o seu príncipe pela ultima vez?
- Claro que não! Vendo as bolinhas coloridas se distanciando... Minha brincadeira não tinha terminado, eu mal havia começado.
- Chorou?
- Não. Senti vontade, mas estava tão assustada que as lágrimas não conseguiram sair. Meu pai nunca mais deixou que eu fosse nadar nas bolinhas. Eu sonhava de noite, me via brincando na piscininha. Mas nunca mais voltei lá...
- Tudo culpa do gurizinho.
- Eu me tornei uma criança menos alegre depois daquele dia. Minha primeira infância terminou lá.
- Estranho, tu não parece carregar nenhum trauma. Pelo menos nunca percebi...
- Aquela flor rosa que tu me deu...
- O quê?! Tu enxergou o gurizinho tarado em mim?!
- Não... Apenas revivi a cena sem ouvir o grito assustador do meu pai.
- Pena que não tinha piscina de bolinhas pra ti nadar depois que eu te dei a flor, hehe.
- Não, mas tinha coisa melhor.
- ...
- Adoro quando tu faz essa cara.
- Afinal, que filme vamos ver?
- Cristiane F.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Bandeira preta

- O Mar é algo especial.
- Eu sei.
- Sabe?
- Sei que tu acha isso.
- Ele representa muitas coisas da vida.
- Como quais?
- Primeiro, as ondas. Cada onda é diferente da outra, nunca ocorrem duas ondas exatamente iguais. Tem aquelas ondas enormes, que te jogam longe num turbilhão arrasador. Tem aquelas que ameaçam estourar mas são apenas confortáveis ondulações que te levantam suavemente como se fosse um bebê nos braços do pai. Seja como for, uma onda jamais vai se repetir. Cada vez que uma onda vem, podemos ter certeza que ela é unica em toda a história do Universo.
- Que mais?
- Depois, o repuxo. Não importa o quanto a onda seja forte e o quanto ela consegue percorrer até a praia. Ela sempre voltará ao seu destino. Ela sempre voltará à corrente inicial, lá no fundão. O Mar jamais perde suas ondas.
- Essa é interessante.
- O Mar é misterioso...
- Diz algo misterioso sobre o mar.
- A bandeira preta.
- O que tem ela?
- Quando eu era pequeno, e chegava ansioso na beira da praia, a primeira coisa que eu olhava era a cor da bandeira dos salva-vidas. Eu apenas torcia para que não fosse bandeira preta. A bandeira preta, assustadoramente imponente, com uma aura terrível... Decretava um clima triste na praia.
- Tanto assim? O que tem demais uma bandeira preta?
- A bandeira preta era um sinal de que o repuxo do Mar estava fora do normal. Era um sinal de que naquele dia, o Mar estava querendo levar alguém para o fundo. Me disseram que nesses dias ele queria companhia. Usaram isso como argumento para que eu não entrasse na água.
- É um bom argumento para um menininho que adora o mar!
- Mas não funcionou. Eu entrei na água sozinho sem ninguém ver. Queria saber se era verdade...
- Meu Deus.
- Assim que eu entrei, veio uma onda na altura da minha cintura, me derrubou, e no repuxo eu fui arrastado sem conseguir firmar os pés no chão. Em 10 segundos, já não havia chão para eu pisar, e uma onda maior estourou. Fiquei completamente mergulhado embaixo d'água, indo cada vez mais pro fundo. Então, naqueles momentos eu acreditei. Eu acreditei que a bandeira preta dizia que o Mar queria levar alguém. Lembro como se fosse ontem...
- E o que aconteceu??
- Uma criança não tem tantos apegos quanto um adulto. Eu aceitei que Ele me levasse. Parei de bater os braços na tentativa de encontrar a superfície, soltei todo o meu corpo e deixei... Quando fiz isso, senti uma onda muito forte me levantando violentamente. Quando ela estourou, eu senti o chão de novo. Fiquei de pé com a água batendo no meu peito, e vi a coisa mais impressionante da minha vida.
- O que?!
- Uma onda monstruosa, do tamanho de um poste mais ou menos, se formou na minha frente. Ela me devolveu à praia.
- Do tamanho de um poste?
- Sim. Talvez, pelo susto da situação, eu tenha sofrido uma ilusão ou alucinação, pois fiquei uns 20 segundos embaixo da água. Para uma criança, isso é muito. Mas eu enxerguei, era uma onda tão grande que parecia ter um rosto.
- Então eu poderia não ter te conhecido...
- Já na areia, esperei o vento me secar para que não percebessem que eu havia desobedecido, e então voltei onde estavam meus pais. Quando cheguei lá, olhei para o meu pai e disse "a bandeira é preta mesmo".
- E o que ele respondeu?
- Ele sorriu e falou: "pelo menos não é bandeira preta com caveira".

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Cordas de aço

- Estou voltando a me encontrar na vida.
- Tava perdido?
- Andei me perdendo.
- Como alguém pode perder a si mesmo, né?
- É mais fácil que perder alguém.
- Não exagere.
- Não é nenhum exagero.
- Por que tu te perdeu?
- Quis esquecer algo...
- E esqueceu?
- Digamos que sim. Mas acabei esquecendo de outras coisas junto.
- E por que queria esquecer?
- Porque sangrava.
- Sangramentos não duram muito, estancam.
- Estancam se alguém estancá-lo. Até lá ele segue jorrando.
- Hm... Então tu não quis estancar...
- É preciso coragem para colocar as mãos sob uma ferida. Só de aproximar os dedos, já começa a doer mais.
- Cagão.
- Deixa eu te fazer um corte à altura do rim, e vamos ver se tu estanca-o sozinho.
- Mas isso é apenas uma metáfora, a tua dor não era física, e muito menos um corte no rim.
- Não, era no pulmão.
- ?
- Um corte no pulmão reduz a freqüência respiratória, altera a freqüência cardíaca, e com isso altera todo o resto. Tive pneumo-tórax.
- Ah, desculpa. Achei que estava falando de algo emocional, de forma poética.
- Estou mesmo. Mas eu tive pneumo-tórax de verdade, por isso fiz a analogia.
- Bem, e qual foi a tua dor emocional?
- Olha, enquanto fiquei no hospital tive algumas experiências apavorantes. Fui acordado no meio da madrugada para uma segunda cirurgia, estive na UTI, vi cenas chocantes. Fiquei sozinho... Senti muita dor. Mas li duas vezes um mesmo livro, aprendi a importância de certas pessoas, aprendi a importância da saúde e fiquei mais sensível do que eu era.
- E...?
- As experiências apavorantes do hospital eu não carrego mais na bagagem. Só trouxe as coisas leves.
- Mas qual era tua dor emocional?
- Não importa mais.
- Por que?
- Tirei da bagagem.
- Mas isso não é o mesmo que esquecer?
- Não. Para tirar, eu tive que abrir a mala, colocar as mãos naquilo que não queria mais carregar.
- Isso não dói tanto quanto estancar uma ferida no rim.
- Imagine que seja uma bola de boliche a 250 graus.
- Doeria. Por isso teus dedos estão marcados, é? Hehe.
- Não. É que voltei a tocar violão. Com cordas de aço.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

O que tu levaria?

- Hm... O livro de poesias do Fernando Pessoa.
- Nossa, normalmente um homem responderia outra coisa pra essa pergunta.
- Responderia o que?
- Sei lá, que levaria uma mulher, a namorada, o amor da vida dele.
- Levar alguém que amo para uma ilha deserta...
- É, ué.
- Só se ela me amasse tanto quanto eu amasse ela. Senão, seria crueldade levá-la para lá. Não seria amor de verdade.
- Não tinha pensando nisso. Mas normalmente um homem também não pensaria assim.
- Por que?
- Ora, porque... porque... Bem, tu sabe.
- Vou fingir que sei só pra tu não ter que fingir que respondeu.
- Obrigada.
- Disponha.
- Por que Fernando Pessoa?
- Foi um grande poeta.
- E daí?
- Bem, eu aprecio sua poesia.
- Não vou devolver a cortesia.
- Qual?
- A de fingir que aceito ser enrolada pra tu não precisar fingir que não enrolou.
- Então posso fingir à vontade?
- Fernando Pessoa fingiria?
- Bem, ele escreveu sob diversos pseudônimos chamados de heterônimos, que eram personagens dele próprio. Mas não sei se isso é fingir...
- Acho que é.
- Talvez ele só quisesse dizer que nós carregamos vários personagens dentro de nós a vida inteira.
- E não teria sido mais fácil publicar um folheto nas ruas dizendo isso?
- Quando a mensagem é clara demais, ninguém leva a sério.
- Eu levo.
- Além disso, ele era poeta. Os poetas fazem isso.
- O que? Fingem?
- Não. Se eu apontar para uma estrela agora, tu vai saber qual é?
- ...
- Não adianta apontar.
- E o que o poeta faz? Mostra ela com um marca-texto?
- Ele diz o que está sentindo ao olhar o céu.
- E em que isso ajuda pra encontrar a estrela?
- Qual? Não há estrela pra ser encontrada...
- Não?
- Não, há apenas um vasto céu a ser admirado. O poeta só ajudou a olhar pra cima.
- Hm... Gostei. Mas e agora, vai me dizer ou não o verdadeiro motivo?
- Motivo de que?
- Do livro do Pessoa. Porque ele te importa?
- Tem alguém dentro dele.
- Fora o Pessoa e seus hormônios?
- Heterônimos.
- Brincadeirinha...
- Tem. Quem me deu ele.
- Isso é bom ou ruim?
- Depende do ponto de vista.
- Do teu ponto.
- É impossivel dizer se isso é bom ou ruim. É apenas significativo.
- E porque levaria o livro para a ilha deserta?
- É uma maneira de levar quem está dentro dele, sem incorrer na situação que citei antes, de ser cruel com quem não te ama tanto quanto tu ama.
- Que bonito.
- Mas e tu, o que levaria?
- Esse CD que tu me deu.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Poesia do tempo

- Por favor, me dá um cigarro.
- Ué, mas tu não fuma.
- Hoje eu preciso.
- Por que?
- O tempo está lento.
- Hum?!
- O tempo. O tempo está devagar.
- Olha, no meu relógio continua igual.
- Teu relógio é um cronômetro que reseta quando alcança o 24, não é o tempo.
- Eu não quis dizer isso. Mas que negócio é esse de "está lento" ? O tempo não muda.
- O tempo é o nosso estado. De acordo com o que sentimos, o tempo será diferente.
- Como assim?
- Um estado de euforia faz com que o tempo se acelere. Horas podem caber dentro de minutos. Um estado de angústia faz com que o tempo se torne pesado, e minutos podem parecer dias.
- Nossas emoções ditam o nosso tempo?
- O tempo não existe coletivamente. Podem sincronizar cronômetros nos pulsos das pessoas, e isso causa a impressão de que todos temos o mesmo tempo. Mas cada um está com um tempo diferente...
- Não compreendo. Me diz, tu bebeu?
- O tempo é a velocidade com que percebemos as coisas acontecendo. Quanto mais rápido for, mais felizes estamos. Nos presídios, cada dia vale por três. Nas praias turísticas, cada dia vale por meio.
- Hm... Estou entendendo. As coisas que eu percebo acontecendo ao meu redor durante 5 minutos são diferentes das coisas que tu percebe...
- Considere o tempo como um catavento no peito de cada pessoa. Cada catavento gira com sua velocidade.
- ...
- Se for bem rápido, rápido o bastante, o catavento deixa de existir. Não conseguimos mais enxergá-lo a girar.
- A aula já vai começar. Nem vi o tempo passar enquanto conversávamos.
- Ainda falta muito.
- Ei, e a Lívia? Falou com ela?
- Por favor, me dê um cigarro.