domingo, 10 de fevereiro de 2008
De hoje
- Não gosto muito.
- Acho que sou fanático. Quero sempre colocar as idéias em forma de letras.
- Sempre?
- Sempre.
- Quando vai beijar alguém, imagino que tu puxe o cadernino e escreva "beijarei".
- Estás me banalizando gratuitamente. Se gosto de escrever, não preciso ser o personagem mais vulgar de uma comédia de terceira linha.
- Hehe, desculpa vai... Mas o que tu gosta de escrever?
- Tudo que chega até mim, com algum sotaque de "coisa especial", eu gosto de escrever.
- Então escreve sobre mim!
- Já escrevi bastante.
- Sério?! Deixa eu ver!
- Queimei.
- ???
- Queimei todas as páginas que escrevi de ti.
- Argh! Por quê?!
- De hoje em diante tu vais dar valor às escritas.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Cristiane
- Sabe do que me deu vontade agora?
- De ir no banheiro?
- Não...
- Ah, é que sempre que vamos colocar um filme, tu tem vontade de ir no banheiro.
- Não é vontade, é pra garantir que eu não precise ir durante o filme!
- E como se faz sem vontade?
- Condicionamento psicológico. Tu chega ali, encara o vaso sanitário, ele te encara também, como quem flerta na praça... O corpo aproveita esse namorico e gera a vontade que antes estava latente aguardando um momento propício. O corpo humano é muito inteligente e eficiente.
- Hm... Mas de nada adianta, porque tu sempre vai de novo durante o filme.
- É a saudade do ex-namoro, hehe.
- Boboca. Fala o que tu tinha sentido vontade!
- Ah sim, de piscina de bolinhas.
- Nossa...
- Que foi?
- Sabe que até me deu vontade agora também...
- Tu também adorava aquelas piscinas?
- Demais! Mas...
- O que?!
- Só fui uma vez, minha vida toda.
- Nossa, eu fui muitas! Por que uma só?
- Eu lembro perfeitamente, quando escorreguei pela primeira vez no tunel e caí naquele mar de bolinhas coloridas. Foi a coisa mais emocionante que eu havia feito até então. Eu não me continha de felicidade. Aí percebi que havia um garotinho descendo o túnel também, e nós dois ficamos feito serelepes nadando nas bolinhas. Ele jogava bolinhas em mim e eu jogava nele. Foi então que, acalmando um pouco a euforia, ele pegou uma bolinha cor de rosa, veio na minha direção e extendeu para mim, para que eu pegasse.
- Mas que safado, flertando na piscina de bolinhas?!
- Éramos apenas crianças. Eu peguei a bolinha rosa com um sorriso de orelha a orelha. Sem que eu pudesse sequer imaginar, ele me deu um beijo na boca, desses de encostar os lábios só.
- Tarado!
- Eu não fazia a menor idéia do porquê ele havia me beijado. Limpei a boca com a a manga da roupa e quando eu ia voltar à diversão das bolinhas, meu pai gritou meu nome com o tom de voz de quando estava irritado. Eu levei um susto enorme, passei de feliz para apavorada em 1 segundo.
- Ele viu o beijo?
- Viu, e ficou muito bravo. Mandou eu sair, xingou o menininho, discutiu até com o pai dele. Me pegou pelo braço e começamos a ir embora. Eu só pude olhar para trás...
- Procurando ver o seu príncipe pela ultima vez?
- Claro que não! Vendo as bolinhas coloridas se distanciando... Minha brincadeira não tinha terminado, eu mal havia começado.
- Chorou?
- Não. Senti vontade, mas estava tão assustada que as lágrimas não conseguiram sair. Meu pai nunca mais deixou que eu fosse nadar nas bolinhas. Eu sonhava de noite, me via brincando na piscininha. Mas nunca mais voltei lá...
- Tudo culpa do gurizinho.
- Eu me tornei uma criança menos alegre depois daquele dia. Minha primeira infância terminou lá.
- Estranho, tu não parece carregar nenhum trauma. Pelo menos nunca percebi...
- Aquela flor rosa que tu me deu...
- O quê?! Tu enxergou o gurizinho tarado em mim?!
- Não... Apenas revivi a cena sem ouvir o grito assustador do meu pai.
- Pena que não tinha piscina de bolinhas pra ti nadar depois que eu te dei a flor, hehe.
- Não, mas tinha coisa melhor.
- ...
- Adoro quando tu faz essa cara.
- Afinal, que filme vamos ver?
- Cristiane F.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Bandeira preta
- Eu sei.
- Sabe?
- Sei que tu acha isso.
- Ele representa muitas coisas da vida.
- Como quais?
- Primeiro, as ondas. Cada onda é diferente da outra, nunca ocorrem duas ondas exatamente iguais. Tem aquelas ondas enormes, que te jogam longe num turbilhão arrasador. Tem aquelas que ameaçam estourar mas são apenas confortáveis ondulações que te levantam suavemente como se fosse um bebê nos braços do pai. Seja como for, uma onda jamais vai se repetir. Cada vez que uma onda vem, podemos ter certeza que ela é unica em toda a história do Universo.
- Que mais?
- Depois, o repuxo. Não importa o quanto a onda seja forte e o quanto ela consegue percorrer até a praia. Ela sempre voltará ao seu destino. Ela sempre voltará à corrente inicial, lá no fundão. O Mar jamais perde suas ondas.
- Essa é interessante.
- O Mar é misterioso...
- Diz algo misterioso sobre o mar.
- A bandeira preta.
- O que tem ela?

- Quando eu era pequeno, e chegava ansioso na beira da praia, a primeira coisa que eu olhava era a cor da bandeira dos salva-vidas. Eu apenas torcia para que não fosse bandeira preta. A bandeira preta, assustadoramente imponente, com uma aura terrível... Decretava um clima triste na praia.
- Tanto assim? O que tem demais uma bandeira preta?
- A bandeira preta era um sinal de que o repuxo do Mar estava fora do normal. Era um sinal de que naquele dia, o Mar estava querendo levar alguém para o fundo. Me disseram que nesses dias ele queria companhia. Usaram isso como argumento para que eu não entrasse na água.
- É um bom argumento para um menininho que adora o mar!
- Mas não funcionou. Eu entrei na água sozinho sem ninguém ver. Queria saber se era verdade...
- Meu Deus.
- Assim que eu entrei, veio uma onda na altura da minha cintura, me derrubou, e no repuxo eu fui arrastado sem conseguir firmar os pés no chão. Em 10 segundos, já não havia chão para eu pisar, e uma onda maior estourou. Fiquei completamente mergulhado embaixo d'água, indo cada vez mais pro fundo. Então, naqueles momentos eu acreditei. Eu acreditei que a bandeira preta dizia que o Mar queria levar alguém. Lembro como se fosse ontem...
- E o que aconteceu??
- Uma criança não tem tantos apegos quanto um adulto. Eu aceitei que Ele me levasse. Parei de bater os braços na tentativa de encontrar a superfície, soltei todo o meu corpo e deixei... Quando fiz isso, senti uma onda muito forte me levantando violentamente. Quando ela estourou, eu senti o chão de novo. Fiquei de pé com a água batendo no meu peito, e vi a coisa mais impressionante da minha vida.
- O que?!
- Uma onda monstruosa, do tamanho de um poste mais ou menos, se formou na minha frente. Ela me devolveu à praia.
- Do tamanho de um poste?
- Sim. Talvez, pelo susto da situação, eu tenha sofrido uma ilusão ou alucinação, pois fiquei uns 20 segundos embaixo da água. Para uma criança, isso é muito. Mas eu enxerguei, era uma onda tão grande que parecia ter um rosto.
- Então eu poderia não ter te conhecido...
- Já na areia, esperei o vento me secar para que não percebessem que eu havia desobedecido, e então voltei onde estavam meus pais. Quando cheguei lá, olhei para o meu pai e disse "a bandeira é preta mesmo".
- E o que ele respondeu?
- Ele sorriu e falou: "pelo menos não é bandeira preta com caveira".
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Cordas de aço
- Estou voltando a me encontrar na vida.
- Tava perdido?
- Andei me perdendo.
- Como alguém pode perder a si mesmo, né?
- É mais fácil que perder alguém.
- Não exagere.
- Não é nenhum exagero.
- Por que tu te perdeu?
- Quis esquecer algo...
- E esqueceu?
- Digamos que sim. Mas acabei esquecendo de outras coisas junto.
- E por que queria esquecer?
- Porque sangrava.
- Sangramentos não duram muito, estancam.
- Estancam se alguém estancá-lo. Até lá ele segue jorrando.
- Hm... Então tu não quis estancar...
- É preciso coragem para colocar as mãos sob uma ferida. Só de aproximar os dedos, já começa a doer mais.
- Cagão.
- Deixa eu te fazer um corte à altura do rim, e vamos ver se tu estanca-o sozinho.
- Mas isso é apenas uma metáfora, a tua dor não era física, e muito menos um corte no rim.
- Não, era no pulmão.
- ?
- Um corte no pulmão reduz a freqüência respiratória, altera a freqüência cardíaca, e com isso altera todo o resto. Tive pneumo-tórax.
- Ah, desculpa. Achei que estava falando de algo emocional, de forma poética.
- Estou mesmo. Mas eu tive pneumo-tórax de verdade, por isso fiz a analogia.
- Bem, e qual foi a tua dor emocional?
- Olha, enquanto fiquei no hospital tive algumas experiências apavorantes. Fui acordado no meio da madrugada para uma segunda cirurgia, estive na UTI, vi cenas chocantes. Fiquei sozinho... Senti muita dor. Mas li duas vezes um mesmo livro, aprendi a importância de certas pessoas, aprendi a importância da saúde e fiquei mais sensível do que eu era.
- E...?
- As experiências apavorantes do hospital eu não carrego mais na bagagem. Só trouxe as coisas leves.
- Mas qual era tua dor emocional?
- Não importa mais.
- Por que?
- Tirei da bagagem.
- Mas isso não é o mesmo que esquecer?
- Não. Para tirar, eu tive que abrir a mala, colocar as mãos naquilo que não queria mais carregar.
- Isso não dói tanto quanto estancar uma ferida no rim.
- Imagine que seja uma bola de boliche a 250 graus.
- Doeria. Por isso teus dedos estão marcados, é? Hehe.
- Não. É que voltei a tocar violão. Com cordas de aço.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
O que tu levaria?
- Nossa, normalmente um homem responderia outra coisa pra essa pergunta.
- Responderia o que?
- Sei lá, que levaria uma mulher, a namorada, o amor da vida dele.
- Levar alguém que amo para uma ilha deserta...
- É, ué.
- Só se ela me amasse tanto quanto eu amasse ela. Senão, seria crueldade levá-la para lá. Não seria amor de verdade.
- Não tinha pensando nisso. Mas normalmente um homem também não pensaria assim.
- Por que?
- Ora, porque... porque... Bem, tu sabe.
- Vou fingir que sei só pra tu não ter que fingir que respondeu.
- Obrigada.
- Disponha.
- Por que Fernando Pessoa?
- Foi um grande poeta.
- E daí?
- Bem, eu aprecio sua poesia.
- Não vou devolver a cortesia.
- Qual?
- A de fingir que aceito ser enrolada pra tu não precisar fingir que não enrolou.
- Então posso fingir à vontade?
- Fernando Pessoa fingiria?
- Bem, ele escreveu sob diversos pseudônimos chamados de heterônimos, que eram personagens dele próprio. Mas não sei se isso é fingir...
- Acho que é.
- Talvez ele só quisesse dizer que nós carregamos vários personagens dentro de nós a vida inteira.
- E não teria sido mais fácil publicar um folheto nas ruas dizendo isso?
- Quando a mensagem é clara demais, ninguém leva a sério.
- Eu levo.
- Além disso, ele era poeta. Os poetas fazem isso.
- O que? Fingem?
- Não. Se eu apontar para uma estrela agora, tu vai saber qual é?
- ...
- Não adianta apontar.
- E o que o poeta faz? Mostra ela com um marca-texto?
- Ele diz o que está sentindo ao olhar o céu.
- E em que isso ajuda pra encontrar a estrela?
- Qual? Não há estrela pra ser encontrada...
- Não?
- Não, há apenas um vasto céu a ser admirado. O poeta só ajudou a olhar pra cima.
- Hm... Gostei. Mas e agora, vai me dizer ou não o verdadeiro motivo?
- Motivo de que?
- Do livro do Pessoa. Por que ele te importa?
- Tem alguém dentro dele.
- Fora o Pessoa e seus hormônios?
- Heterônimos.
- Brincadeirinha...
- Tem. Quem me deu ele.
- Isso é bom ou ruim?
- Depende do ponto de vista.
- Do teu ponto.
- É impossivel dizer se isso é bom ou ruim. É apenas significativo.
- E por que levaria o livro para a ilha deserta?
- É uma maneira de levar quem está dentro dele, sem incorrer na situação que citei antes, de ser cruel com quem não te ama tanto quanto tu ama.
- Que bonito.
- Mas e tu, o que levaria?
- Esse CD que tu me deu.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Poesia do tempo
- Ué, mas tu não fuma.
- Hoje eu preciso.
- Por que?
- O tempo está lento.
- Hum?!
- O tempo. O tempo está devagar.
- Olha, no meu relógio continua igual.
- Teu relógio é um cronômetro que reseta quando alcança o 24, não é o tempo.
- Eu não quis dizer isso. Mas que negócio é esse de "está lento" ? O tempo não muda.
- O tempo é o nosso estado. De acordo com o que sentimos, o tempo será diferente.
- Como assim?
- Um estado de euforia faz com que o tempo se acelere. Horas podem caber dentro de minutos. Um estado de angústia faz com que o tempo se torne pesado, e minutos podem parecer dias.
- Nossas emoções ditam o nosso tempo?
- O tempo não existe coletivamente. Podem sincronizar cronômetros nos pulsos das pessoas, e isso causa a impressão de que todos temos o mesmo tempo. Mas cada um está com um tempo diferente...
- Não compreendo. Me diz, tu bebeu?
- O tempo é a velocidade com que percebemos as coisas acontecendo. Quanto mais rápido for, mais felizes estamos. Nos presídios, cada dia vale por três. Nas praias turísticas, cada dia vale por meio.
- Hm... Estou entendendo. As coisas que eu percebo acontecendo ao meu redor durante 5 minutos são diferentes das coisas que tu percebe...
- Considere o tempo como um catavento no peito de cada pessoa. Cada catavento gira com sua velocidade.
- ...
- Se for bem rápido, rápido o bastante, o catavento deixa de existir. Não conseguimos mais enxergá-lo a girar.
- A aula já vai começar. Nem vi o tempo passar enquanto conversávamos.
- Ainda falta muito.
- Ei, e a Lívia? Falou com ela?
- Por favor, me dê um cigarro.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Ela fala de ti.
- Como assim?
- Ela fala de ti.
- Impossível, eles não me conhecem, hehe.
- Às vezes os artistas sequer sabem porque escrevem uma canção. Eles apenas sentem...
- Sentem como?
- São pessoas muito sensíveis, vivem uma vida mais aberta.
- Uma vida aberta?
- É, eles ficam de fora do turbilhão da vida social. A gente acorda pra estudar ou ir para o trabalho. Eles acordam para escrever uma canção.
- E onde eu entro nisso?
- Por serem muito sensíveis, eles percebem coisas que estão suspensas no inconsciente coletivo...
- Ah, fala sério, boba...
- Eu sei que tu acredita, bobo.
- Eu não...
- Acredita.
- Ok, nisso tudo que tu falou eu acredito. Mas sobre mim, não. Como poderia?
- Tu tem alguma coisa especial, alguma coisa que ainda não veio à tona totalmente, mas vai vir um dia. Eles captaram a tua alma e colocaram nessa música.
- Como uma foto?
- Hehe... É, uma foto borrada.
- Então esse é o meu retrato sonoro, fora de foco...
- Um dia tu vai ouvir ela de um jeito que terá certeza do que eu to dizendo.
- E aí tu vai me olhar e dizer: "eu bem que avisei" ?
- Não.
- Por que?
- Não estarei mais aqui.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
O Banheiro...
Isolados em uma mansão quase luxuosa, um grupo de pessoas contracena a novela da vida real. Incapazes de se comunicar sem que o Big Brother esteja observando-os, são obrigados a interagir com o jogo sem qualquer escapatória, sem que tenham tempo de ensaiar qualquer coisa. Não são donos do próprio destino. Estão à mercê do Grande Irmão.
Menos no banheiro.
Na literatura política de George Orwell, "1984", existiam pontos cegos que o Big Brother não poderia alcançar. Por que seria diferente na mansão inspirada nesta obra? No banheiro, as câmeras não entram. No banheiro, o Grande Irmão não existe.
- Pega uma cerveja pra mim?
- Saindo uma cervejinha bem gelada...
- Ai! Não joga, eu detesto que joguem as coisas pra mim.
- Por que? É só pegar!
- Mas eu tenho medo de não pegar, oras. Se fosse uma caneta, tudo bem... Mas é uma cerveja.
- Hehe, tá certo, cerveja não pode cair... E se eu te jogasse meu coração?
- Nem tento pegar, vai direto...
- Que isso, Rita?!
- To brincando, fofinho.
- Além disso, canetas podem estourar se cairem no chão.
- Hum?
- Você disse antes, que tudo bem se tivesse jogado uma caneta. Mas pode estourar.
- É... Sabe como eu me sinto aqui às vezes? Como se tivesse tendo de escrever uma carta com uma caneta estourada. Sabe, você quer escrever com traços finos, mas ela esbanja tinta e faz traços grossos demais para formarem palavras. Às vezes eu sinto que não consigo ser quem sou aqui, tudo que tento fazer se torna uma palavra borrada. As câmer...
- Ei.
- ...
- Fica calma.
- Vocês dois, não vão voltar pra festa?
- Eu vou. Essa musica é demais! Depois a gente se fala.
- Rita, que foi amiga?
- Nada não...
- Não mente pra mim, to vendo nos teus olhos. Vai, me conta, o que foi?
- Eu estou sufocada por uma sensação estranha, parece que nós somos marionetes controladas por mãos que sequer conhecemos. Estamos sob risco de criarmos inimizades entre nós, passarmos por situações de debilidade emocional, colocamos nosso próprio corpo à prova por horas a fio, e quem decide nosso destino não está aqui. Sabe, as câmer...
- Amiga!
- Eu sei, desculpa.
- Só precisa ficar calma, tá bom? Vai, muda de assunto. Você acha o Ígor bonito? Eu acho ele lindo, muito charmoso.
- É, simpático, parece boa pessoa.
- Boa pessoa? É pessoa boa! Hehe...
- Renata, tu tens cotonete?
- Tenho sim, ali no quarto. Quer?
- Agradeço, tô com uma coceira no ouvido.
- Ai amiga, coça com uma tampa de caneta!
- Isso é anti higiênico.
- Tá bom, vou ali pegar pra você.
- Caneta...
- Pronto, coça o ouvido com higiene agora hehe...
- Obrigada, Rê. Escuta, não existem canetas na casa, não é?
- Não. Eu tinha algumas na mala, mas a produção disse que não podia. Quer escrever uma carta pra alguém? Ah, desculpa, esqueci que o carteiro não passa aqui! Hahaha!
- É... Olha, a cerveja quer sair. Vou no banheiro, já volto.
Não sei se foi o efeito da cerveja, ou crise de estress aguda, mas Rita desabou em lágrimas sentada no vaso sanitário. Ao menos ali ela poderia ser pateticamente instintiva, natural e espontânea. Ali não existiam câmeras. E enquanto aliviava-se da quantidade extra de líquidos, enrolou na mão alguns centímetros de papel higiênico. Suas lágrimas mornas deslizaram sobre as bochechas e dois pingos caíram no papel que empunhava. Formaram a figura de 2 olhos. Olhos que a olhavam, olhos que a observavam. Olhou para a outra mão, e viu que ainda estava com o cotonete emprestado pela amiga.
"Posso escrever, posso escrever! Posso usar o cotonete para escrever no papel higiênico... Talvez dobrando assim, uma, duas... três vezes! Nunca pensei que um cotonete molhado poderia ter tanto valor"
Rita decidiu rebelar-se contra as câmeras. As câmeras que ousaram impedi-los de agirem como pessoas naturais que eram antes de entrar naquela mansão. Escrevendo no papel higiênico, poderia comunicar-se com os outros participantes. Poderiam combinar quem venceria as batalhas, sem terem de se submeter verdadeiramente às violentas provas do jogo. Talvez pudessem melhorar sua própria situação se o prêmio do jogo deixasse de ser exclusividade de 1 só pessoa. Talvez pudessem pular da situação de cobaias para o cargo de atores. Atores da vida real imaginária. Talvez pudessem...
"Porra! Isso aqui é ridiculo. Estamos lutando como vermes por um pedaço de carne. É o que o sistema quer, é o que as câmeras querem! Querem nos ver pateticamente fragilizados na busca de um pedaço de carne, que poderíamos dividir e acabar com o jogo! Mas se escrever no papel higiênico, preciso de sorte para que alguém leia antes que a marca de água seque. Não posso depender da sorte, preciso de algo colorido. Ah, bendita cerveja! Bendita urina."

Em apenas 3 dias, todos os participantes estavam cientes da nova situação. Todos eles entravam com um cotonete escondido na roupa íntima, e concordaram em dividir igualmente a premiação final. Eram os donos do jogo. Viraram a mesa e transformaram as câmeras em meras coadjuvantes. Todos os dias criariam seus próprios scripts através do papel higiênico. Quem vai chorar hoje? Quem será indicado ao paredão? Cuidado para não dar bandeira, fulano tem que brigar com ciclana hoje à noite. Nada de revelar que ali não existiam mais animais em busca de um pedaço de carne. O Grande irmão precisa acreditar na sua obra...
Mas, o ultimo comentário do rolo de papel, dizia:
- Estou fora disso. Não dividirei nada. Ass: Marcus.
- Eu voto no Marcus, porque eu quis fazer sexo com ele e ele não quis, disse que era fiel à namorada.
- Voto no Marcus! Caramba pô, ele quer que a gente abaixe o volume do som na festa? Acho que tá na hora dele ir pra casa.
- Voto no Marcus. Ele falou que quem está atrás da TV vendo a gente, é vagabundo desocupado. Acho que o povo merece mais respeito. Valeu Brasil!
Marcus foi eliminado com 84% dos votos.
domingo, 27 de janeiro de 2008
Vitória
- Putz, pronto, começou.
- Comecei nada, olha aí po!
- Olhaí o que?!
- Esse jogo de merda, vai dar merda!
- Não vai, o João Melão vai resolver a parada.
- João Melão... Melão eu vou jogar na cabeça dele, não fez nada.
- Dá pra ficar calmo? Estamos empatando.
- Mas se ficarmos empatando por tanto tempo, uma hora eles vão marcar, eu sei disso, eu sei, eles vão fazer gol, vai dar merda, porq...
- CALMA! Olha, eu vou buscar uma cerveja, já volto.
- Tá. Paga o cara do bar com a mão direita, senão vai dar merda.
- ...
- Oi, tem alguém sentado aqui?- Tem, mas não entende nada de futebol. Alguém que não acha que esse jogo vai dar merda!
- Hahaha, é óbvio que vai dar merda! Olha lá, a bola não pára no pé deles.
- Senta aí, tu entende do negócio.
- Valeu, mas não tinha ninguém aqui?
- E eu esqueci de colocar cueca sortuda. Eu sou bem animal também...
- Ah, esquece isso... Coloquei a calcinha da sorte no meu casamento e ele desistiu.
- Casamento? Quantos anos tu tens?
- 20, e tu?
- 25, e nunca tive sequer uma noiva.
- Relaxa, ela vai aparecer...
- Ei! Não preciso desses incentivos, ok? Não tive noiva porque eu não quis.
- É, esse time aí também não precisa de incentivo...
- O quê!? Tá me comparando com esse time?
- Calma, não quis ofender.
- Sei...
- Alguma pessoa já quis casar contigo?
- Olha lá, acho que o jogo tá melhorando!
- E aí meu, voltei. Oi, tudo bem?
- Oi! Desculpa, ele não me disse que havia alguém aqui, desculpa mesmo...
- Não esquenta, esse animal uma vez disse que pagava minha passagem de ônibus, e quando subimos ele não tinha dinheiro.
- Vou procurar outro lugar, acho que ali no...
- Não, pode ficar. Acho que se apertar, cabemos os três.
- Obrigada! Ainda bem que sou magrinha, hehe...
- Nós vamos vencer esse jogo.
- Não meu, vai dar merda isso.
- To com ele hein, isso não tá com jeito de que vai acabar bem.
- Pronto, agora são dois...
- Olhaí, mais um passe errado, só pode dar merda!
- Zeca, eu sei que é final de campeonato, eu sei que o jogo é tenso e está dificil, mas tu não precisas dizer que vai dar merda a cada lance perdido.
- Não querendo me intrometer, mas acho que ele tem bons motivos pra ser pessimista...
- Eu joguei pedra na cruz... Dois pessimistas do meu lado! Um já era suficiente. Quer cerveja? Bebe aí, vai.
- Obrigada. Não costumo beber, mas hoje to nervosa.
- Olha lá! Olha lá! O que ele fez?! Por favor me digam o que ele tentou fazer! Jogou a bola pra ninguém, pra ninguém!
- Calma, Zeca. Nem parece que é final de campeonato, parece que é a decisão da tua vida, po!
- Zeca, não liga não... Ele é otimista porque provavelmente tudo deu certo na vida dele. Ele não conhece a derrota.
- Eu não conheço a derrota?!
- Acho que não...
- Ela tá certa, Pedro, nunca te vi deprimido por ter perdido algo...
- Pronto, agora eu sou um mimado dos Deuses só porque acredito na vitória do nosso time.
- Ah meu, se tu não fosse, estaria vendo que esse jogo vai dar merda!
- Porra cara, ainda é um jogo de futebol, não é a tua vida que está em jogo!
- Guris! Calma, calma... Eu não queria causar briga, vou procurar outro lug...
- Fica aí!
- Tá bom...
- Escuta, porque teu noivo desistiu de casar contigo?
- Noivo desistiu de casar?
- Ela me contou enquanto tu não estava, Pedro, então faz de conta que não tá ouvindo e que não sabe de nada.
- Ele conheceu uma menina dias antes. Ela foi ousada o suficiente para convencê-lo a desistir do casamento...
- Ousada assim como esse time adversário?
- Bem assim. Chega no território alheio, ouvindo a torcida alheia, e quer levantar a taça.
- Ai meu São Benedito, isso só pode ser um sinal...
- Pára Zeca, ela tá só contando uma história!
- Ei! Não era pra ti não ouvir?
- Desculpe, senhorita. Eu bem que tentei.
- Tanto faz. Depois que uma igreja inteira me viu vestir um vestido de noiva para nada, não tenho vergonha nem de posar nua para figurinhas de chicletes.
- Eu passaria a comer bastante chiclete.
- Fica quieto, Pedro! Escuta, e depois dele, tu ainda conseguiu acreditar em alguma coisa?
- Essa partida é a primeira, desde então.
- Mas esse jogo vai dar merda, não pode depositar tua fé aqui!
- Como eu poderia saber? Agora é tarde.
- Vocês dois falam como se essa partida estivesse valendo a vida.
"- João Melão recebe a bola pela direita, avança em velocidade, pode ser a ultima chance da partida, invadiu a grande área, vai cruzar, cruzou... E a bola é
desviada pelo zagueiro... e o juiz marca pênalti! Peeeeeeeeeeeenalidade máxima, a bola bateu na mão do zagueiro!"
- Meeeeeeeeeeeeeeeeu, é pênalti, é pênalti!
- Acho que vai dar merda...
- Zeca, eu também to sentindo que vai.
- Por que a gente sente isso?
- Não sei, eu gostaria de estar comemorando como o teu amigo. Gostaria de ter força para acreditar que um pênalti equivale a um gol.
- Eu também gostaria.
- Tá me olhando assim por que?
- Meu Deus, ele vai cobrar o pênalti e vocês estão se beijando! Pelo menos beija de olhos abertos...
- Quer saber? Acho que vai ser gol.
- Eu tenho certeza.
- Ué, não ia "dar merda" ?
" - Batista vai para a cobrança da penalidade. Ele tem sob suas costas o peso de um título, o peso de uma decisão. Se ele fizer, é campeão! Olhou pra bola, tomou distância, a torcida faz silêncio absoluto! Batista, correu, bateu... Na traaaaave..."
- Não!
- Não!
- Ai!
"- ...no rebote, Melão domina tocou direto a bola vai entrando... Goooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooool!"
- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaah!
- Eu sabia! Eu sabia! Eu disse!
- Não acredito!
- Vamos, diga que vai dar merda agora! É campeão, porra! É campeão!
- Não acredito, não acredito!
- Acreditaria em mim?
- ...
- Acreditaria que comigo não vai dar merda?
- Acredito mais que tudo na vida.
- Ele ta vindo comemorar aqui, olha lá!
- Ainda não sei o nome...
- Melão! João Melão!
- To falando com ela!
- Vitória.
Cartões românticos
- Tá animado por que? Acha que alguém vai te mandar algo?
- Sei lá, cara... Vai que manda? Mas pra garantir a adrenalina, eu mandei dois!
- Porra, mandou dois? Pra que mandar dois, animal?
- Pra aumentar minhas chances, óbvio!
- Não estás aumentando tuas chances de te dar bem, estás apenas aumentando as chances de te meter em problema ou concluir que tu é um merdinha.
- Por que, meu?
- Porque se as duas te aceitam, é problema. Se nenhuma te aceita, tu é um merdinha.
- E tu hein, o que fizeste?
- Escrevi só um cartão. Mandei um cartão para a Juliana. Se ela não me quiser, morri como guerreiro. Se ela me quiser, serei o melhor homem deste mundo.
- Hm.. Já colocou na caixa?
- Não, ainda to pensando se coloco...
- Cara, daqui 5 minutos eles vão recolher para distribuir!
- Se eu perder o prazo, entrego em mãos.
- Hahaha, duvido!
- E tu, colocaste teus dois cartões na caixa?
- ...
- Mas é bem animal... Coloca logo!
- Não sei.
- Pra quem são?
- ...
- Que foi?
- Meu, o que tu faria se
- Puta merda, animal, tu tá mandando pra Juliana?
- Eu não sabia que tu também ia mandar, meu.
- E a outra, quem é?
- Que outra?
- Não ia mandar pra duas?
- Ahn...
- Quem era?
- É que os dois eram pra ela.
- Meu Deus, bagualzinho, que diferença faz mandar 1 ou 2 cartões?
- Persistência é importante, eu li isso num livro que a empregada lá de casa lê.
- Eu te conheço há tempo demais pra acreditar que tu farias uma idiotisse dessas. Tu é animal, mas não é tanto. Mandar 2 cartões é decretar o atestado de doença mental.
- ...
- ?
- Eu sabia que tu enviaria pra ela também :(
- ?
- Escrevi um com o teu nome...
- QUÊ!?
- Oi guris...
- Oi Ju!
- O que vocês pensariam se recebessem dois cartões de uma só pessoa? Será que ele vai me achar uma idiota?
Sorte no jogo, azar no amor.
- Não dessa vez. Aposto 30!
- Se baixar pra 15, eu até pago...
- Se tens boas cartas, por que precisas que eu abaixe a aposta?
- Se peço para baixar, te faço acreditar que tenho péssimas cartas.
- Se tivesse cartas altas, teria pago minha aposta sem titubear!
- Pago os 30... e aposto mais 15.
- Mais 15?!
- Sim, 45.
- Me alcança o conhaque.
- Quando fui ao banheiro há pouco, ela me ligou.
- Capaz? Falou com ela no banheiro?

- Falei.
- Nunca fale ao telefone no banheiro! Pelo eco da voz, dá pra perceber que se está no banheiro...
- Eu disse que estava na igreja.
- E ela acreditou?
- Sim, mas eu puxei a descarga na mesma hora.
- Isso é o que eu chamo de auto-boicote...
- Vai pagar ou não?
- O que ela queria?
- Nada. Vai pagar minha aposta?
- Fala, o que ela queria?
- Acho que posso me considerar vencedor.
- Ei! Deixe essas fichas aí, o jogo não acabou!
- Sei que vencerei; tenho sorte no jogo.
- Não hoje. Pago pra ver, mostre as cartas.
- Four de reis. Satisfeita, minha cara? Ela ligou pra dizer que não quer me ver nunca mais. Ligou pra dizer que sou cabeça-dura demais pra ela. Mas tenho quatro reis. Quatro! Tenho sorte no jogo.
- Four de ases. Eu te am...